Porque privatizar (ou desestatizar) o ensino é uma das melhores reformas que se pode fazer

Talvez seja somente uma percepção subjetiva sem maior relevância objetiva, mas a impressão que tenho é que a privatização do ensino é um dos maiores tabus da sociedade brasileira. Até onde eu sei nenhum partido, figura política ou figura pública de destaque está defendendo a privatização total do ensino no Brasil. Segundo as notícias que chegam até mim, o recente anúncio de corte de gastos na educação causa uma de duas reações: indignação ou pesar. Alguns reagem com indignação, e não aceitam que qualquer corte seja feito; outros reagem com pesar, mas consideram que os cortes são necessários. Ditas estas coisas, penso que cabe a mim agir como Walter Block e “defender o indefensável”: o governo (ou o estado – use o vocabulário que lhe convir) não deveria ter qualquer papel na educação. Para isso irei expor brevemente o que é economia, como ela funciona, e o que isso tem a ver com governo, indivíduos e educação. É uma exposição breve, e pode deixar alguns pontos pouco desenvolvidos. Para uma exposição mais profunda deste tema, recomendo o livro Educação: Livre e Obrigatória, de Murray Rothbard.

Economia é a gestão de recursos necessariamente escassos que possuímos. Os recursos são necessariamente escassos porque somos seres humanos finitos, e não deuses. Alguns paradigmas econômicos (notoriamente o marxismo) partem de um pressuposto de abundancia de recursos, mas isto é falso e até mesmo perigoso: até mesmo o homem mais rico do mundo tem somente 24 horas no seu dia. Tem somente um corpo, e não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tem energia limitada, e fica cansado. Todos nós possuímos recursos limitados (ainda que alguns possuam mais recursos à sua disposição do que outros). A economia é a arte de melhor gerir estes recursos.

A gestão dos recursos limitados que possuímos é feita através de escolhas. O nome que os economistas dão a isso é “custo de oportunidade”: a não ser que você detenha infinitos recursos, gastar em uma coisa significa não gastar na segunda melhor alternativa. Exemplos: comprar o carro A significa não comprar o carro B; morar na cidade X significa não morar na cidade Y; casar com Z significa não casar com W; e escolher a carreira α significa não escolher a carreira λ. Como disse um antigo professor meu, “a vida é feita de escolhas”.

Considerando que possuímos recursos finitos e precisamos fazer escolhas, qual é mecanismo mais eficiente para tomar decisões? Certamente muitas pessoas gostariam de tomar decisões com base nos seus gostos pessoais. Gostariam de escolher aquilo de que mais gostam. Porém, aquilo de que mais gosto nem sempre está ao meu alcance. Exemplos: ainda que eu goste mais de uma Ferrari do que de um fusquinha, talvez eu precise me contentar com a segunda opção. Ou ainda que eu queira viajar, talvez eu tenha que me contentar em pagar o tratamento para um problema de saúde que acabei de descobrir que tenho. É por coisas assim que a economia ficou conhecida como “ciência triste”. Muitas vezes ela está aí para lembrar que nem sempre podemos ter o que queremos. Dito isto, a melhor forma de tomar decisões é pelos preços: os preços nos dizem se aquilo que desejamos é compatível com os recursos disponíveis.

Os preços são geralmente definidos em termos de dinheiro. Dinheiro é melhor definido por aquilo que faz do que por aquilo que é. Muitas coisas podem ser dinheiro: papel, metais preciosos, cigarros, balas ou dígitos num computador. Mas o que dinheiro faz é servir como uma linguagem: o dinheiro transmite de uma pessoa para outra o valor dos recursos envolvidos numa mercadoria ou num serviço. E valor é algo subjetivo. Contrariando a teoria do valor trabalho, é impossível saber de forma objetiva qual é o preço de uma determinada mercadoria ou serviço: é necessário que este valor seja definido por relações de oferta e procura. E é de incontáveis relações de oferta e procura que os preços são feitos. Em outras palavras, os preços nos transmitem de forma simples algo que jamais poderia ser calculado por uma pessoa: uma infinidade de relações de oferta e procura, escolhas e preferências, dentro da economia. Como disse Friedrich Hayek, “a economia somos nós”.

E assim chegamos à educação. Como eu disse acima, escolher a carreira α significa não escolher a carreira λ. Como essa decisão é feita? Certamente que muitas pessoas escolhem sua carreira com base em aptidões que percebem em si mesmas, ou em considerações sobre o que poderá ser uma atividade profissional mais prazerosa. Porém, este é um luxo que não está disponível para todos: muitas pessoas precisam escolher uma carreira com base no que pode dar mais retorno financeiro com menor investimento e menor risco. Posso escolher uma carreira que promete um grande retorno financeiro, mas com grande risco de não conseguir emprego num mercado de trabalho altamente competitivo, ou com um investimento de recursos (em tempo em dinheiro) que não posso arcar. A vida é feita de escolhas, e essas escolhas muitas vezes envolvem riscos. Escolher uma carreira é dizer não (ao menos temporariamente) para todas as outras. Algumas pessoas tem a chance de arriscar mais. Outras não têm o mesmo luxo. Considerações como relação candidato/vaga, salário médio, nível de empregabilidade e outras são semelhantes aos preços, e podem ser bons parâmetros ao se decidir por uma carreira. Mas com o governo criando vagas em universidades, determinando regras de acesso ao mercado de trabalho e adotando outras medidas, os preços não refletem a real relação de oferta e procura. Em outras palavras, a linguagem é distorcida, e as decisões não são as melhores, nem para os indivíduos, e nem para a sociedade.

Compreendo que pensar assim possa soar extremamente cínico, e pode ser um banho de água fria, especialmente para os mais jovens ou mais sonhadores. Muitas pessoas preferem tomar decisões considerando seus gostos pessoais, sua vocação, seu desejo de ajudar o próximo ou outras considerações. Não estou desmerecendo nenhuma destas considerações. Estou apenas dizendo que somos seres humanos limitados que vivem num mundo de recursos limitados. Precisamos fazer o melhor uso possível destes recursos. Embora os recursos sejam limitados, nossa criatividade para aproveitá-los não demonstra um limite óbvio. O uso criativo e sustentável dos recursos necessita de uma bússola, um guia. O sistema de preços é o melhor guia que possuímos. Sem propriedade privada não há formação de preços, e sem formação de preços o cálculo econômico é impossível. Por esta razão os gastos com educação não param de aumentar e a qualidade dos resultados não para de cair: o melhor juiz para determinar como os recursos serão empregados é o individuo fazendo uso de seus próprios recursos. A interferência do governo prejudica ou até desfaz este julgamento.

Em tempo: estou defendendo que o governo precisa sair da educação e deixá-la para a iniciativa individual (até mesmo porque somente indivíduos podem ter iniciativa). Não estou defendendo que educação precisa ser necessariamente paga pelos alunos. Como disse Milton Friedman, “não existe almoço grátis” (mais uma dessas frases que tornam os economistas – especialmente os liberais clássicos e libertários – pessoas pouco populares). Mas quando uma pessoa tem fome e não pode pagar pelo almoço, outra pode fazer isso. O nome disso é caridade, e quero incentivá-la o máximo possível. Caso você se preocupe com os pobres, sugiro que pare de mandar dinheiro para Brasília na forma de impostos, que serão necessariamente mal empregados (segundo tudo que discuti aqui), e procure pessoas que precisam. Com certeza você não terá dificuldade de encontrá-las.

O que é socialismo?

Alguns posts atrás fiz uma exposição sobre o que é capitalismo, e também procurei expor e desmistificar alguns equívocos a respeito dele. Nos próximos posts pretendo fazer algo semelhante com o socialismo: explicar o que é e desfazer alguns mitos e equívocos. Falando a respeito de capitalismo, expliquei que esta palavra é utilizada de forma bastante livre, e assim há muitas variedades de capitalismo. Optei por expor um tipo de capitalismo associado ao pensamento de Adam Smith e à tradição liberal, algo que pode ser chamado de liberdade econômica, liberdade de mercado ou liberdade de escolha. O socialismo também aparece em variadas formas. O que exponho aqui é a variedade associada a Karl Marx. Marx foi um historiador, filósofo e sociólogo, mas o que me interessa aqui é principalmente sua teoria econômica.

A teoria econômica de Marx começa com a teoria do valor trabalho. De acordo com esta pressuposição, o que dá valor a um produto é a quantidade de trabalho envolvida na produção. Em outras palavras, o trabalho (trabalho braçal, entenda-se) é a fonte de todo valor. Esta percepção de valor trabalho pressupõe uma ligação entre mais valia e acumulação de capital. Marx argumentou que toda a riqueza é fruto do esforço dos trabalhadores. No entanto, os trabalhadores não recebem um salário correspondente ao valor pelo qual sua produção é vendida. Na percepção liberal, a diferença entre custo de produção e valor de venda é chamada de lucro. Na percepção de Marx, isto é mais valia: os donos das fábricas (ou donos dos meios de produção) enriquecem a custa do esforço dos trabalhadores. Mas esta é uma relação insustentável: para lucrar os empresários precisam pagar aos trabalhadores o mínimo possível, somente o suficiente para garantir a sobrevivência e reprodução dos trabalhadores. Com o tempo, os lucros iriam cair, o capital (ou os recursos de produção) iriam se concentrar em poucas e imensas fábricas (fabricas menores seriam levadas à falência pela competição), haveria dificuldade de transferência de capital (os investimentos seriam cada vez menos rentáveis), o número de desempregados se elevaria, a capacidade de venda cairia, crises cada vez mais profundas e frequentas ocorreriam, todo o sistema iria inevitavelmente chegar ao fim. Uma sociedade socialista, onde os trabalhadores seriam donos dos meios de produção, surgiria.

No coração da teoria econômica de Marx está o conceito de mais valia: os trabalhadores não recebem o que merecem pelo seu trabalho. Ao invés disso, eles são explorados pelos patrões. Acredito que esta noção de exploração comove muitas pessoas, mas ela não faz o menor sentido. Marx não está dizendo que alguns patrões exploram os trabalhadores. Ele está dizendo que, por definição, todos os patrões exploram os trabalhadores, pois retém na mais valia uma riqueza que não lhes pertence.

A pedra fundamental da teoria econômica de Marx é a teoria do valor trabalho: o que confere valor a um produto é o trabalho que se tem para produzi-lo. Daí que necessariamente haja exploração. Mas a teoria do valor trabalho está certa? Ela corresponde à realidade? Acredito que está bem claro que não: posso ter muito trabalho para produzir uma escultura de palitos de fósforo no meu quintal, e nunca conseguir vende-la, pois ela não tem valor para mais ninguém. Todo o meu trabalho, todo o meu esforço, é inútil e sem valor se eu não estiver produzindo algo que seja do interesse de outra pessoa. Além disso, a revolução marginalista do final do século 19, e particularmente a Escola Austríaca, veio demonstrar que valor é algo subjetivo e sujeito a condições de tempo e espaço.

A questão clássica a respeito de valor é: “porque diamantes, que não alimentam, são tão caros, enquanto que água, que é essencial à vida é tão barata?”. A resposta do valor trabalho é que dá muito trabalho conseguir diamantes, enquanto que água literalmente cai do céu. Mas esta resposta é incompleta: em alguns lugares água não cai do céu. No deserto do Saara, morrendo de sede, uma pessoa pode trocar muitos diamantes por copo de água. Em outras palavras, se a teoria do valor trabalho está correta, então há um valor objetivo: é possível calcular com precisão o valor de alguma coisa considerando o trabalho empregado em sua produção. Mas é manifesto que isto não é verdade: produtos tem seu valor afetado por muitas circunstâncias, e o esforço empregado na produção pode não ter qualquer relevância no valor final.

A conclusão é simples: se a teoria do valor trabalho está errada, toda a teoria econômica de Marx está errada. Isto quer dizer que patrões nunca exploram seus empregados? Claro que não! Isto quer dizer apenas que esta exploração não ocorre segundo a explicação de Marx.

As previsões de Marx (salários menores, maior desemprego, crises econômicas recorrentes e profundas) foram desmentidas uma a uma: a Europa do final do século 19, progressivamente marcada pelo liberalismo econômico, experimentou uma prosperidade impar em sua história. Num quadro mais amplo, nações que optam pelo liberalismo econômico prosperam, e principalmente prosperam os trabalhadores. Basta comparar Coreia do Norte e Coreia do Sul, China e Hong Kong, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, EUA e URSS e assim por diante. Entendo que muitas pessoas se encantam com o marxismo (e como o socialismo) por se apiedarem das condições muitas vezes precárias dos trabalhadores. Porém, não basta ter o coração no lugar certo. É fundamental ter uma compreensão correta da realidade. Caso a exploração dos trabalhadores seja uma preocupação para você, sugiro considerar o capitalismo e esquecer qualquer forma de socialismo.

Some thoughts on Rio de Janeiro elections

I’m a great fan of the Lord of the Rings, both the books and the Peter Jackson movies. Overall I believe the movies are pretty faithful to the books. There are, of course, some differences, but I generally accept the explanation that adapting a book to a movie is hard and some changes have to be made. There is, however, a whole chapter from the books absent from the movies that I believe shouldn’t be. If you haven’t seen the movies or read the books, be warned, spoiler alert. The said chapter is called “The Scouring of the Shire.” In the movies, when the hobbits return home from the War of the Ring, hardly anything has changed. It seems like the Shire has not been affected by the events in the world around it at all. In the books, however, Saruman the White, the evil wizard, escapes to the Shire after been defeated in the battle of Isengard. He ends up governing the Shire in secret under the name of Sharkey until the events of “The Scouring of the Shire,” when the hobbits return and lead a rebellion, defeating the intruders and exposing Saruman’s role. I believe this chapter is important because it shows that evil is not somewhere far from home. We may fight a war overseas, but evil may end up lurking really close to us.

This last Sunday Brazil had municipal elections. The Workers Party (PT), the political party of impeached president Dilma Rousseff and the almost convict ex-president Luis Inácio Lula da Silva, was the great loser. Some cities will still have a second round of votes, but it is clear that in the process PT will lose a great number of prefectures, city halls, and with it many commissioned positions as well. In sum, the process of rejection that started with the impeachment goes on and well. Or almost. In Rio de Janeiro the elections will be decided in second round between Marcelo Crivella and Marcelo Freixo. Crivella is a licensed bishop of the controversial Universal Church of the Kingdom of God, and Freixo is a member of the Socialism and Freedom Party (PSOL). Crivella was Rousseff’s ally almost until the very end, when his party decided to vote for the impeachment. PSOL is a dissent from PT that left the former party in 2004, believing that Lula was too pro-market in his policies.

Saruman took refuge in the Shire and changed his name to Sharkey. The inhabitants of the Shire were too unaware of the events of the War of the Ring to understand what was going on. Saruman was the White Wizard. He was supposed to be good, but ended up being one of Sauron’s greatest allies. Freixo is Saruman: he may try to hide as much as he wants to, and even change his name, but he is an ally to the worst things in Brazilian politics. He poses as someone pure (or White), but just like Saruman he actually has a robe of many colors, depending on who he wants to impress. PT changed its name to PSOL and is now trying to hide in my Shire. I hope the cariocas will not let it happen.

PSOL is popular mostly among the young, artists, and rich people from rich neighborhoods, so I don’t actually believe Freixo will become mayor. But their plan is, following Antonio Gramsci, to create a cultural hegemony and thus to win elections on the long run. PT did exactly this, but it seems like Brazilians are beginning to understand that socialists care only for other people’s money and little else. PSOL even has liberty in its name, but of course they aren’t going to offer any liberty to the people. Slavery can be defined as forced labor to someone else’s benefit. And that is also the exact definition of socialism: you work, they take your money and they give it to someone else. As Alexis de Tocqueville said it, “socialism is a new form of slavery.” I hope people in Brazil, and especially in Rio, will realize it.

O capitalismo explora os trabalhadores?

Um dos argumentos contra o liberalismo econômico que tenho ouvido recentemente (ou contra a liberdade de mercado, com pouca ou nenhuma intervenção do estado) é que as relações entre patrões e trabalhadores são desiguais, e logo então desfavoráveis para os trabalhadores; cabe ao estado intervir a favor dos trabalhadores; o liberalismo econômico não é bom para os trabalhadores. Tenho dificuldade com este argumento, pois ele passa a ideia de que os patrões não trabalham. Seja como for, acredito que posso aceitar parte do que está sendo dito: é lógico que alguns patrões irão tentar pagar o pior salário possível aos trabalhadores para conseguir os maiores lucros possíveis. É lógico que muitos patrões irão ver qualquer investimento em segurança, bem estar, saúde e outros “direitos” como gastos incômodos, e irão tentar evitar estes gastos. É lógico que o trabalhador está pleiteando a vaga, e neste sentido está à mercê do patrão que a oferece. Tudo isto é não apenas lógico, mas empírico. Pessoalmente já vi estas coisas acontecendo “com estes olhos que a terra há de comer”. Há patrões que irão tentar fazer todas estas coisas e outras ainda, aproveitando-se da situação vulnerável dos trabalhadores. Irão tentar. Mas irão conseguir?

Segundo me parece, uma forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é apelar para a caridade dos patrões. Embora eu suspeite que esta abordagem possa soar romântica para muitos, o fato é que empiricamente ela funciona com alguma frequência. Historicamente, foi o cristianismo de muitos empresários que possibilitou a melhora das condições de trabalho na Europa e Estados Unidos durante o primeiro século de Revolução Industrial. Portanto, esta é uma abordagem que, acredito, não deve ser desconsiderada.

Uma segunda forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é criar leis trabalhistas. Ao invés de esperarmos que os patrões sejam voluntariamente bons, podemos usar a violência legítima do estado para força-los a serem bons. Esta abordagem possui efeitos positivos, mas também muitas consequências inesperadas. Basicamente o objetivo de qualquer lei é tornar os relacionamentos humanos mais padronizados. Uma maneira mais negativa de dizer a mesma coisa é falar que leis engessam a sociedade. Leis trabalhistas criam “direitos”, mas também impedem que trabalhadores e empregadores negociem voluntariamente outras possibilidades de relacionamento. Um exemplo bastante conhecido é o salário mínimo, que contra intuitivamente prejudica os trabalhadores mais do que os ajuda. Finalmente, leis só fazem sentido caso sejam amparadas por um estado. E com mais leis, mais estado. Nossa relação com o estado já é por definição desigual: o estado possui o monopólio do uso legitimo da violência; nós não. Aumentar o tamanho do estado é aumentar nossa vulnerabilidade dentro de uma relação desigual, o que vai contra exatamente o que está sendo discutido aqui.

Uma terceira forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é a liberdade econômica. Sim, como eu comecei dizendo, é lógico e empírico que alguns patrões irão tentar se aproveitar de situações de vulnerabilidade dos empregados. Mas irão conseguir? Numa sociedade orientada pela liberdade de mercado, é mais provável que não. Com liberdade de mercado, a tendência é o surgimento de concorrência, além de uma maior diversidade de atividades econômicas. Neste cenário, patrões que procurem abusar dos trabalhadores correm o rico de perder os trabalhadores para outros patrões. Mesmo no cenário improvável de todos os patrões serem abusivos, tratar bem os trabalhadores torna-se um imperativo para manter os lucros. A alternativa seria um acordo geral dos patrões abusivos, mas isto tornasse empiricamente infactível numa sociedade progressivamente marcada por liberdade de escolha. Uma última observação nesta lista muito longe de exaustiva de benefícios do livre mercado para o trabalhador é que no livre mercado a tendência é de aumento da produtividade. E nada está mais ligado a aumentos de salários do que aumento de produtividade. De fato, onde há liberdade de mercado os salários aumentam, assim como o poder de compra.

Em resumo, sim, há patrões que se aproveitam das relações desiguais com trabalhadores para exercer poder sobre estes mesmos trabalhadores. Isto é não apenas lógico, mas empírico. Mas qual é a melhor solução para este problema? Apelar para a boa vontade dos patrões? Criar leis que deem aos trabalhadores mais direitos? Favorecer uma maior liberdade de mercado? Minha resposta é: criar leis que favoreçam maior liberdade de mercado, e ao mesmo tempo apelar para a boa vontade dos patrões, até porque num cenário de maior liberdade econômica, patrões abusivos estão indo contra seus próprios interesses.

 

Referências:

O capitalismo explora os trabalhadores?

Some afterthoughts on Rio Paralympics

Paralympics are over, and with them the cycle of Olympic Games in Rio de Janeiro. Once again the city was able to put up a good show, and thankfully all went well in the Cidade Maravilhosa. But not everything is alright in Rio: even more than the Olympics, the Paralympics were able to show the contradictions between the city where we live everyday and the city of the event: Rio is not welcoming for people with disabilities.

At least in Brazilian Portuguese, political correctness has done a mess with vocabulary concerning the kind of people who compete in Paralympics. We are not supposed to say they are disabled (don’t even think about saying they are crippled!). I think the correct vocabulary today is, as I used, “people with disabilities.” But even that is under political correct scrutiny, so it seems. All this discussion about words springs from cultural Marxism, postmodernism, relativism and the belief that there’s nothing objective beyond our vocabulary. But words can’t hide the reality: Rio is unequal. The way it treats the blind, the lame, and even the elderly or the young, is completely different from the way it treats people in middle-age and more able to walk. And all that despite strong legislation in this area.

One of the greatest debates in political philosophy in the 20th century happened between American philosophers John Rawls and Robert Nozick. Trying to build on classical liberal foundations (but moving to egalitarian liberalism), Rawls pointed out that “equality was supposed to be the moral benchmark for social and political institutions, and that any deviation from equality had to be specially justified.” Nozick answer was that liberty upsets patterns. Even if we have a starting point in society where we have a perfectly equal distribution of goods or assets, the moment that we allow people to be free to make their own choices (as liberalism prescribes) they are going to make choices we cannot possibly predict, and these choices are going to upset any kind of pattern we established in the first place. That happens because each one of us is unique in its own right: each one of us have a specific set of values, preferences and circumstances that upsets any would-be planner. So, if you want to respect human liberty to make choices, you have to give up on any plan for material equality.

Nozick’s answer to Rawls has a lot of Adam Smith in it. In The Theory of Moral Sentiments (1759) (preceding the more famous Wealth of Nations both in time and argument) Smith presented a character called “man of system.” This person sees society as an architect sees a blueprint for a construction. Smith says such person is “apt to be very wise in his own conceit; and is often so enamored with the supposed beauty of his ideal plan of government that he cannot suffer the smallest deviation from any part of it.” The problem is that humans have free will, the ability to make choices. And as such, they will upset any blueprint prepared for them. In other words, “individual people are not chess pieces you can move on a board with their dreams and desires ignored.” To the eyes of the would-be planner, “society must be at all times in the highest degree of disorder.”

So, material equality of outcomes (or at least of opportunities) is totally out of reach? Should we disregard it completely? Should the “invisible hand” prevail in spite of the weakest in our society? I don’t think so. Just the opposite! One of the very reasons I find classical liberalism morally appealing is the fact that no economic or political system ever conceived helps the weakest as it does. In other words, contrary to (what seems to me is) the popular belief, classical liberalism defends social justice more than any of its intellectuals alternatives. Answering John Rawls’s famous claim that “a just society will be one whose rules tend to work to the maximum advantage of the least well-off classes,” Friedrich Hayek pointed out exactly this. In The Constitution of Liberty, Hayek agreed with Rawls about the end at which social institutions should aim: the welfare of the least advantaged. He simply disagreed about the means Rawls thought would get us there.

Instead of thinking of us as chess pieces on a board, when can use the analogy of a soccer game (or football, or basketball – suit yourself). The outcome of the game is the result of the player’s individual abilities, but it is also the outcome of the rules. In other words, in a free society, where people are free to choose, the outcomes are not just the result of the innumerable decisions of countless individuals. They are also the result of the rules enforcing property rights, contracts, taxation, and so on. So, it’s important to think about the justice of these rules, as well as the outcomes they might have. The point is that we can embrace a theory of social justice, but that just tells us the end we are heading to, not the means to get there.

Contrary to egalitarians, progressivists and socialists claims, no theory “tends to work to the maximum advantage of the least well-off classes” as classical liberalism does. And that’s a great reason I support it. As I said in the beginning, Rio is very unequal, despite decades of egalitarian policies in the city and in Brazil as a whole. On the other hand, there’s plenty of evidence that classical liberal policies tend to help the very people others accuse it of ignoring. When it comes to doing social justice, it’s important to have not just the heart, but also the mind in the right place. And I believe classical liberal policies are this place.

References:
What’s Right about Social Justice?
Rawls and Nozick on Liberty & Equality
Adam Smith and the Follies of Central Planning
Fight of the Century

Alguns mitos, equívocos e objeções comuns ao capitalismo

No meu último post ofereci uma definição de capitalismo baseada nos conceitos de escolha pessoal, trocas voluntárias, liberdade de competição e direitos de propriedade privada. Em resumo, um capitalismo liberal ou uma sociedade de livre mercado. Neste post eu gostaria de começar a desfazer alguns mitos, equívocos e objeções comuns ao capitalismo (se entendido nos termos que defini anteriormente). A lista não é exaustiva, mas acredito que cobre bastante terreno da discussão. Aí vai:

  1. Ser pró-capitalismo é ser pró-grandes corporações.

Adam Smith observou que empresários dificilmente se encontram para eventos sociais, mas que quando se encontram não conseguem evitar combinar meios de evitar a mútua concorrência. Empresários (especialmente donos de grandes corporações) tendem a não gostar de concorrência. É compreensível. A maioria de nós também preferira não ter colegas de trabalho com quem competir, assim como vários corredores hoje gostariam que Usain Bolt não existisse. O capitalismo liberal, no entanto, é um sistema de perdas e ganhos. Numa economia verdadeiramente livre de intervenção do estado é improvável que corporações se tornem desproporcionalmente grandes. A tendência é ao nivelamento.

  1. O capitalismo gera uma distribuição de renda injusta

Uma das grandes objeções ao livre mercado é a desigualdade de renda. No entanto, nenhum sistema econômico na história foi tão eficiente em retirar pessoas da pobreza quanto o capitalismo. Numa economia verdadeiramente livre a desigualdade existe e é basicamente inevitável, mas não é nada quando comparada a sociedades que optam pelo controle estatal da economia. China, URSS e Cuba são os países mais desiguais da Terra.

  1. O capitalismo é responsável por crises econômicas, incluindo a mais recente

A crise de 2008 foi causada por intervenção do governo norte-americano nos setores bancário e imobiliário. Sem intervenção do governo, instituições financeiras teriam um comportamento mais cuidadoso e a crise seria evitada. A mesma observação vale para basicamente qualquer crise econômica dos últimos 200 anos.

  1. Capitalismo explora os pobres

A livre concorrência, por definição, não é um sistema de exploração. Quando eu pago cem reais por um par de sapatos, isso significa que eu valorizo mais o par de sapatos do que os cem reais. O sapateiro, por sua vez, valoriza mais os cem reais do que o par de sapatos. Isso não quer dizer que não existam vendedores inescrupulosos, ou que não existam compradores injustos. Mas numa sistema de livre concorrência as possibilidades de fraude são mitigadas justamente pela concorrência: se o produto ou serviço não agrada ao consumidor, há sempre a possibilidade de procurar a concorrência. Em resumo, no capitalismo o consumidor é rei. Para concluir este ponto, apenas uma observação: o salário é nada mais do que o preço que se paga pelo trabalho de uma pessoa. E as mesmas observações se aplicam.

  1. Capitalismo é injusto

Algumas pessoas nascem com deficiências. Algumas pessoas nascem em famílias pobres ou desestruturadas. Isso é injusto? Por quê? Uma definição clássica de justiça é “dar a cada um o que lhe é devido”. O que nós é devido? O que nós merecemos? Eu merecia ter nascido com boa saúde? O que eu fiz para merecer isso? Estas perguntas facilmente nos levam a grandes indagações filosóficas e teológicas, e logo demonstram o quanto a acusação de injustiça numa economia livre é superficial. Ainda assim, nenhum sistema político ou econômico permite a ajuda aos desfavorecidos como o capitalismo. Se você considera injusto que existam pessoas sem dinheiro, sem saúde ou sem famílias estruturadas, sugiro que seja coerente e use mais do seu tempo e dinheiro para ajudar estas pessoas. 

  1. Capitalismo não traz felicidade

Pensando num sentido aristotélico, felicidade possui significados diferentes para cada um. Para um cristão significa ter um relacionamento pessoal com Deus através de Jesus Cristo. Provavelmente um não cristão não irá concordar com este conceito de felicidade. Dito isto, a liberdade econômica não tem como objetivo trazer felicidade para qualquer pessoa, e assim é injusto culpá-la por algo que não propõe fazer. Porém, dentro de um sistema de liberdade econômica a tendência é que a liberdade para a busca da felicidade também esteja presente. Além disso, com liberdade econômica é mais provável que consigamos buscar nossa felicidade através da criação de uma família, do envolvimento com instituições religiosas, ou mesmo ficando ricos simplesmente.

  1. Capitalismo não é estético e é poluidor

Os países mais poluidores do século 20 foram URSS e China. Proporcionalmente ao tamanho da sua população, EUA está longe do topo desta lista. Quanto ao fator estético, sugiro pesquisar por imagens da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, ou da Coreia do Sul e da Coreia do Norte. Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê, mas me parece bastante óbvio que esta acusação estética é simplesmente falsa.

  1. Corporações são cheias de escândalos e extorsão

Com certeza elas são. Mas possuem o mesmo nível de corrupção de governos? A matemática é bastante simples: quanto mais governo, mais corrupção. Além disso, com uma corporação é possível simplesmente levar o dinheiro embora dali. Governos não são tão permissivos com evasão de impostos. A proposta de criação de mais sistemas de vigilância governamental apenas aumenta o tamanho do governo e as possibilidades de corrupção. A ideia de transparência e de consulta popular também é simplesmente falsa: a não ser que possamos passar 24 horas de nossos dias vigiando os governantes, estes sistemas simplesmente não terão possibilidade de funcionar. A solução mais simples continua sendo menos governo.

Há mais alguns tópicos que podem ser acrescentados e que deixarei para um futuro post. Por enquanto basta dizer que capitalismo (definido como livre mercado) pode ser bastante diferente daquilo que popularmente se entende.

Para saber mais:

https://www.youtube.com/watch?v=KGPa5Ob-5Ps

https://www.youtube.com/watch?v=ZgiLF48w7uQ

O que é capitalismo?

O Brasil é capitalista? O capitalismo é culpado por vários problemas que observamos no Brasil? E outros países? A China é hoje um país de economia capitalista, ainda que com política socialista (ou comunista)? O capitalismo prejudica os mais pobres enquanto beneficia os mais ricos? Estas são algumas questões com as quais me esbarro regularmente. Algumas pessoas mais sofisticadas observam que não há apenas um capitalismo, mas vários: o capitalismo brasileiro é diferente do sueco, que é diferente do japonês, que é diferente do norte-americano, e assim por diante. Vejo alguma pertinência nesta observação, mas penso que ela ainda deixa de lado a questão mais básica e fundamental: o que é capitalismo?

Suponho que sem recorrer a qualquer fonte podemos concluir que capitalismo é algo relacionado a capital. Segundo o Palgrave Macmillan Dictionary of Political Thought, de Roger Scruton, “o capitalismo é um arranjo econômico, definido pela existência predominante de capital e trabalho assalariado”. De acordo com esta definição, no capitalismo alguns ganham salários e outros ganham lucros. Capital por sua vez é definido como “os meios de produção produzidos, ou seja, commodities que foram produzidas e que por sua vez podem ser empregadas na produção de outras commodities”. Em outras palavras: capital são recursos que são empregados na produção de mais recursos. Capitalismo é um sistema econômico (e não predominantemente político ou social ou cultural) que gira em torna da alocação destes recursos.

Partindo de uma forma de pensar semelhante, Milton Friedman observou que todos os países são capitalistas. Os EUA são capitalistas. A China é capitalista. A URSS é capitalista (Friedman estava fazendo esta observação ainda no período da Guerra Fria). Não há país (ou sociedade) onde não haja capital e onde não ocorram decisões sobre como alocar o capital. Há bastante tempo Max Weber fez uma observação semelhante, afirmando que alguma forma de capitalismo esteve presente em todas as civilizações, com a diferença que mais recentemente o Ocidente produziu um capitalismo moderno, com características peculiares. Mas voltando para Friedman: todos os países são capitalistas. A questão é: quem controla o capital?

A pergunta de Friedman lembra uma observação de Friedrich Hayek: durante o período da Guerra Fria era comum afirmar que a economia da URSS era planejada, enquanto que a economia dos EUA não era. Mas esta afirmação está errada: ambas economias eram planejadas. A da URSS por um pequeno grupo de pessoas em Moscou; a dos EUA por milhões de indivíduos espalhados pelo país. O ponto de Hayek é que uma economia necessariamente envolverá decisões sobre como alocar capital (ou recursos). A questão é: quem tomará estas decisões? Um grupo de governantes num comitê centralizado, em nome de toda a população? Ou a própria população, numa esfera mais modesta, dentro de suas próprias vidas?

Adam Smith é popularmente considerado o pai do capitalismo (e também da Economia como disciplina acadêmica, além do liberalismo econômico. Adam Smith teve muitos filhos). Curiosamente, Smith não usou o nome capitalismo em seus escritos (este nome seria cunhado mais tarde por marxistas – o próprio Marx também não usou este nome, ao menos não regularmente), mas falava sobre sociedade de mercado. A observação de Smith era que em tempos recentes mais pessoas estavam se tornando mercadores. Em tempos antigos (sobretudo na Antiguidade Clássica de Grécia e Roma) as relações econômicas eram dominadas por donos de terras e escravos. Havia mercadores (ou comerciantes), mas estes ocupavam um espaço menor na sociedade (e também eram vistos com desconfiança por não produzirem nada – apenas trocarem o que outros produziram). Na Inglaterra do final do século 18 mais pessoas eram comerciantes, isto é, trocavam alguma coisa, ainda que “alguma coisa” fosse sua força de trabalho em troca de salários. Neste sentido, Smith não inventou o capitalismo moderno: apenas observou e descreveu seu nascimento – além de suas vantagens diante de outros arranjos econômicos.

Partindo de Adam Smith e chegando a Friedman e Hayek, podemos observar quatro elementos fundamentais do capitalismo moderno (ou do liberalismo econômico, ou as sociedade de mercado, ou do livre mercado): escolha pessoal; trocas voluntárias; liberdade para competir em mercados; direito de propriedade privada. A escolha pessoal se refere às decisões individuais que se toma a respeito dos recursos individuais (devo sair para trabalhar hoje? Ou devo ficar em casa?). Trocas voluntárias se refere ao fato de que posso livremente trocar meus recursos com outra pessoa que queira fazer o mesmo (havendo uma coincidência de vontades). Liberdade para competir significa que posso oferecer meus serviços (ou produtos, ou talentos) e aguardar que haja interessados. Propriedade privada se opõe a propriedade coletiva ou comunal, geralmente sob controle do estado.

Uma forma mais direta de sistematizar a teoria de Smith (e neste ponto de Friedman e Hayek) é dizer que no livre mercado a propriedade é privada (e não coletiva ou comunal) e o trabalho e assalariado (e não escravo). Mais simples ainda, o livre mercado opera pela máxima de “não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você”, ou “não mexa com quem está quieto”. No livre mercado os indivíduos são livres para fazer trocas voluntariamente com outros indivíduos – que queiram voluntariamente fazer estas trocas, havendo coincidência de vontades.

Há muitos economistas que consideram que a sociedade de mercado é mais um tipo ideal do que uma realidade. Alguns países estão mais próximos desta ideal do que outros, e neste sentido é válida a observação de que há variedades de capitalismo. O capitalismo praticado no Brasil (ou na China) não é (nunca foi e nunca chegou perto de ser) o capitalismo liberal descrito ou almejado por Smith, Friedman e Hayek. O capitalismo praticado nos EUA está mais próximo disso, embora esteja num franco afastamento deste ideal há várias décadas.

Saber o que é capitalismo é um primeiro passo para sabermos se este é um modelo que desejamos ou não. Pretendo nos próximos posts continuar este assunto. Por ora, digo apenas que quando falo a respeito de capitalismo estou pensando na sociedade de mercado descrita ou almejada pela tradição liberal. Caso o que temos no Brasil seja capitalismo, certamente não é este capitalismo que defendo.

Cristianismo, socialismo, heresia e vale da estranheza

Eu sou viciado em YouTube. Uma das coisas que mais gosto de fazer nas horas livres é assistir vídeos, e assim, ao longo dos anos tenho aprendido muitas coisas novas. Um dos meus canais favoritos é o Vsauce, um canal de popularização de ciência, ou uma versão para jovens e adultos de O Mundo de Beakman. Foi num vídeo do Vsauce chamado “Why Are Things Creepy?” que aprendi o conceito de uncanny valley. Creepy é uma palavra inglesa de difícil tradução para o português. Alguns traduzem como assustador ou arrepiante, mas penso que isso não traz o significado exato. Creepy é algo que causa uma sensação desagradável de medo ou desconforto. Uma arma apontada para você é assustadora, pois é uma ameaça clara à sua integridade. Creepy é usado para coisas que não são ameaças óbvias, mas que ainda assim causam desconforto. Um bom exemplo é o uncanny valley.

Uncanny valley é igualmente um conceito de difícil tradução. O artigo em português da Wikipédia traduz como vale da estranheza. Provavelmente é um falso cognato, mas canny me faz lembrar canonical, e assim quando ouço ou leio uncanny valley penso em vale não canônico, ou vale fora do padrão. Talvez seja minha confusão entre inglês e português, mas me ajuda a compreender melhor o conceito. Uncanny valley é um conceito criado pelo professor de robótica, Masahiro Mori e utilizado atualmente na robótica e na animação 3D para descrever a reação de seres humanos a réplicas humanas se comportam de forma muito parecida — mas não idêntica — a seres humanos reais. Derivado do conceito há a hipótese de que “à medida que a aparência do robô vai ficando mais humana, a resposta emocional do observador humano em relação ao robô vai se tornando mais positiva e empática, até um dado ponto onde a resposta rapidamente se torna uma forte repulsa”. Ou seja, réplicas humanas quase reais são muito creepy: elas causam alguma repulsa, embora a razão da repulsa não seja clara. O fato é que sabemos instintivamente que um robô ou um personagem de animação 3D não é um ser humano real, por maiores que sejam as semelhanças com um.

Os conceitos de creepy e uncanny valley me vieram à cabeça pensando a respeito de socialismo e cristianismo. A meu ver o socialismo é uma heresia do cristianismo. Mas uma maneira mais popular que pensei de falar isso é dizer que o socialismo é um clone deformado do cristianismo que causa essa sensação de creepy. É um robô ou um personagem 3D que tenta copiar a coisa real, mas instintivamente sei que não é a mesma coisa. A diferença é que Masahiro Mori acredita que o uncanny valley pode ser superado, levando inclusive à interessante hipótese de não podermos mais distinguir entre o que é um ser humano natural e um ser humano artificial. Já o socialismo jamais irá se equiparar ao cristianismo desta forma. Ao contrário: num estágio inicial o socialismo se parece com o cristianismo, e pode causar alguma empatia. Porém, quanto mais o socialismo se aprofunda, mais seu caráter artificial causa repulsa a quem conhece bem o cristianismo.

Para ser totalmente honesto, estou consciente de que há variedades de socialismo e não quero cometer a falácia do espantalho. O socialismo que tenho em mente consiste numa preocupação com os mais pobres e num desejo por mais igualdade econômica e social. Considerando o que ouço de pessoas ao meu redor, este é o socialismo corrente, e não o marxismo. A maioria das pessoas não leu Marx e não conhece realmente a definição de socialismo dele. Seria interessante saber o que aconteceria caso conhecessem. Seja como for: esta preocupação com os pobres e este anseio por maior igualdade econômica e social também está presente no cristianismo. Na verdade, se você não tem uma preocupação especial com os pobres, você não pode ser chamado de cristão. Porém, as semelhanças são superficiais. O cristianismo possui uma densidade e profundidade ausentes neste socialismo que descrevi. O cristianismo é a coisa real. O socialismo a cópia infeliz que causa repulsa.

Dentro da perspectiva cristã as causas para a pobreza podem ser muitas, variando entre a injustiça e a preguiça. As soluções também são variadas, e vão de alguma ação do governo à caridade ou simplesmente disciplina. A antropologia cristã é extremamente densa, marcada especialmente pelo conceito de pecado original. Somos criados à imagem e semelhança de um Deus perfeito, mas também somos adulterados pelo pecado. Na concepção calvinista, totalmente depravados. Na concepção luterana, ainda que convertidos ao cristianismo e salvos, justos e pecadores. Outro conceito profundo do cristianismo, especialmente do calvinismo, é a dinâmica relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Em geral esta discussão vira os olhos das pessoas, mas esta é apenas uma demonstração de como o cristianismo é profundo ao tratar da nossa condição de indivíduos racionais, tomando decisões, mas confrontados com situações que estão além do nosso controle.

Mesmo pensadores não cristãos têm sido beneficiados ao longo do tempo por autores clássicos como Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal e João Calvino. Seus insights a respeito da natureza humana e da fragilidade da nossa existência são densos como chumbo. Em comparação, o socialismo, sendo o sofisticado marxismo acadêmico ou a versão mais popular, são apenas cópias superficiais e sem a mesma essência.

Se você não tem uma preocupação especial com os pobres e um desejo por justiça social, você não pode ser chamado de cristão. Ainda que você não seja cristão, a filosofia produzida por cristãos ao longo de 2 mil anos pode ser uma rica fonte de reflexão a respeito da nossa vida como indivíduos ou em sociedade. Caso você se considere cristão e socialista, você certamente ainda não conhece realmente uma dessas duas coisas. Ou as duas. Caso você se considere socialista por se preocupar com os pobres e ter um desejo de justiça social, suas ideias e sua ação podem melhorar muito se você desviar o olhar do clone e olhar para a coisa real.

Final thoughts on Rio Olympics

Rio Olympics are over, and it seems to me, they are leaving a great impression. Despite all the problems the city and the country faced in recent years, not to mention the fact that Brazil is still a developing country, all ends well for Summer Olympics 2016.

One final comment I would like to make about the events once again relates to Brazilian athletes: Brazil scored an unprecedented 19 in the medal table (7 golds, 6 silvers and 6 bronzes), establishing a new record for itself. Among Brazilian medalists were people like Martine Grael, who won gold in Sailing, 49er FX Women. Martine is the daughter of twice Olympic gold medalist in sailing Torben Grael. Her brother Marco and uncle Lars also sailed in the Olympics. We also had people like Isaquias Queiroz dos Santos, who won Silver in Canoe Sprint, Men’s Canoe Single 1000m, Bronze in Canoe Sprint, Men’s Canoe Single 200m, and again Silver in Canoe Sprint, Men’s Canoe Double 1000m, becoming the first Brazilian athlete to ever win three medals in a single edition of the Olympic Games.

Isaquias was born in a very poor region of Brazil, and has been through great adversity before becoming an Olympic medalist: as a child he poured boiling water on himself and spent a month in hospital recovering; at the age of 5 he was kidnapped and offered up for adoption before being rescued by his mother; at the age of 10 he fell out of a tree and lost a kidney. In his teenage years he severed the top third off his left ring finger. He started training in a social project supported by Brazilian Federal government.

I am pretty sure that this picture happens with athletes and medalists from other countries: on one hand we have medalists like Martine, coming from a well-to-do environment and with a family of athletes who introduced her to the sport. On the other hand we have medalists like Isaquias, who had to face great hardships but was helped by social programs to become an Olympic athlete. Considering that, should the government create more programs to develop more people like Isaquias? Should the government prevent the privileges of people like Martine? Questions like these may sound preposterous to many, but they actually reflect much of the political discussion we have today: should the government help kids from poor families with education, healthcare and other things in order to create a head start? Should the government overtax the rich (and their heritage) in order to create more equality? In other words, what we have here is a discussion of equality versus freedom. In order to talk about that we have to understand what is equality and what is freedom.

There are many senses in which Isaquias and Martine will never be equals: they were born in different places, to different families. They had different life stories. There is a sense in which no two individuals are equal: each one of us is in each one way unique. And that makes us all special in each one way. Of course, when talking about equality most people are thinking about equality of outcome. But they forget (or ignore) that in order to have this kind of equality you need to ignore all the differences between individuals – the very same thing that makes us all unique and special – or to use government force to take from one and give to another. So, unless you are willing to ignore all the differences that make us all unique or to use force against non aggressors, you have to accept at least some income inequality as part of life. The classical liberal answer to that is that we need to be equal before the law: a great part of the liberal project in previous centuries was basically to abolish privileges (private laws) and to make all equally responsible before government. That is an equality we can all have. And we should.

The second point is freedom. Freedom from what? Or to do what? There are at least two kinds of freedom discussed in the context of the liberal revolutions in the 18th and 19th centuries. One is related to John Locke and the Founding Fathers, the other to Jean-Jacques Rousseau. In the Declaration of Independence Thomas Jefferson wrote that “all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.” The discussion about this phrase can go really long, but I want to emphasize simply that in Jefferson’s view you have the freedom to pursue your own understanding of happiness. I may completely disagree with what you are choosing for your life, but at the same time I am not to force you in any way to change your choices. I am not to force upon you my brand of happiness, not matter how much I am sure I have the correct one.

Rousseau’s version of freedom is very different: as he famously stated, “whoever refuses to obey the general will shall be compelled to do so by the whole of society, which means nothing more or less than that he will be forced to be free.” In other words, if you are a minority (and especially if you are an individual, the smallest minority possible) people can force upon you their brand of happiness. That is one reason why Rousseau is called “the philosopher of vanity”: he refuses to accept that people see life in a different way from his own. Rousseau’s vision of freedom is connected to his troubled relation with Christianity – where indeed you need to have a relationship with God through Jesus to become free. But the catch is that in Christianity God never forces you. Rousseau’s god is very different, and as such, Rousseaunism is just a Christian heresy.

To conclude, in order to create more income equality you have to destroy the classical liberal version of freedom – or to change to another version that inevitably leads to totalitarianism. As Milton Friedman said, “A society that puts equality — in the sense of equality of outcome — ahead of freedom will end up with neither equality nor freedom. The use of force to achieve equality will destroy freedom, and the force, introduced for good purposes, will end up in the hands of people who use it to promote their own interests.” I just hope we can have more people like Isaquias and Martine, who achieve great goals, sometimes with the help of friends and family, sometimes in completely unpredictable ways.

Still thinking about the Olympics

Rio Olympics are close to the end, and so far it has been a wonderful time for Brazilian athletes: the country is scoring 15 total in the medal table, quite high in its historical record. Brazil’s first Olympic medal in 2016 was won by Felipe Wu right in the first day of competition: silver in Shooting, 10m Air Pistol Men. Wu was followed by Rafaela Lopes Silva, who won gold in Judo, Women -57 kg, and then by Mayra Aguiar, who won bronze, also in Judo, Women -78 kg. Rafael Silva won another bronze for Brazil in Judo, Men +100 kg, and then Arthur Mariano won still another bronze, this time in Gymnastics Artistic, Men’s Floor Exercise. Diego Hypolito won silver in the same competition. On the tenth day of competition Poliana Okimoto won Bronze in Marathon Swimming, Women’s 10km and Arthur Zanetti won Silver in Gymnastics Artistic, Men’s Rings. The next day, Thiago Braz da Silva surprised everyone by beating favorite French Renaud Lanillenie and winning gold in Athletics, Men’s Pole Vault.

In the last few days other athletes followed the ones mentioned in this opening paragraph, but I limit the text to them for a reason: one highlight of these first 9 Brazilian medalists is that, with the exception of Hypolito, all of them are in the military, and some of my friends on what is considered “the right” in the Brazilian political spectrum are using this information to poke (in good spirit) my friends on the left. On the other hand, my friends on the left highlight that many of the Brazilian medalists also have in common coming from very poor backgrounds, and finding in government social programs the chance to become professional athletes. I want to be careful to say that both are wrong and I want to explain why (I hope I will still have some friends after this). Basically both ignore the concept of opportunity cost.

The concept of opportunity cost postulates that spending in one direction means not spending in another. In other words, that every choice comes with the cost of forgoing the next best alternative. It was developed in all but name by 19th century French economist Frédéric Bastiat in the parable of the broken window (also known as the broken window fallacy or glazier’s fallacy) that appeared in his 1850 essay Ce qu’on voit et ce qu’on ne voit pas (That Which Is Seen and That Which Is Not Seen). The parable goes somewhat like this: a boy breaks a window. The window owner gets upset, but someone tries to comfort him by saying that this will give the window manufacturer the opportunity to work. In the end, the economy wins. Bastiat shows that this is a fallacy: the money spent in a new window could have been spent in another way, say, with new shoes. The world would have new shoes and still have a window, but now the world has a new window and no shoes. Bastiat proceeds to show the law of unintended consequences, or how our actions can affect the economy in ways that are “unseen” or ignored, and also to apply the concept to several areas of public policy. Two of these happen to be military expenditure and “Theatres, Fine Arts.”

Concerning military expenditure, Bastiat argues that spending money in order to defend the country against foreign aggressors can be a good investment, but that any money that goes beyond this necessity would have been better spent in other way. This argument goes against Bastiat’s contemporaries who argued that money spent on the military had the benefit of creating jobs, even if defense was not a real necessity. Bastiat’s conclusion is that if the money was left with the taxpayer, this person would find ways to spend that would create more and better jobs. Applying to current events, if Brazil is spending money in the military in order to protect its borders, this is a good investment. If instead it is spending money in the military in order to get Olympic medals, the money should be spent elsewhere.

Bastiat lived before modern Olympic Games, so he has nothing directly to say public spending in this kind of event, but I guess that what he says about “Theatres, Fine Arts” also applies here. Some of his contemporaries defended that the government should invest in Theatres and Fine Arts, because these things are good in themselves, created jobs, and so on. Bastiat was once more against what he saw as excessive public spending. This time his answer exposed him to the logical fallacy of the straw man, or misrepresenting one’s argument in order to make it easier to attack: his critics accused him of not caring about Theatres and Fine Arts. But if we examine the evidences carefully, that is not the case at all: to say that the government should not invest in Theatres and Fine Arts is not to say that nobody should invest in it. It is just to say who is supposed to make the investment, the government of individuals. I am not equalizing Theatres and Fine Arts with sports, but I believe the lesson applies in this field as well: to say that the government should not invest in sports is totally different from saying that nobody should invest in it.

In conclusion, it seems that public investment in the military and social programs is helping Brazil to win medals in this Olympics. But we can ask ourselves where would that money have gone had this investment not been made. Based on Bastiat, I believe that if the money spending was left for the individuals, Brazil would have better military, more Olympic medals, and less necessity of social programs, not to mention better jobs, and a better overall economy. Perhaps after this Olympic Games my friends both on the left and on the right can feel like investing more in sports. Or maybe they will realize they prefer to spend on something else.

Some thoughts on the Olympic Games and cosmopolitanism

Right now my city, Rio de Janeiro, is hosting the Summer Olympic Games. It is in many ways a great moment, and it is especially good to see people from so many parts of the world together in relative harmony. In other words, a good example of cosmopolitanism. The cosmopolitanism in the city today reminds me of the attempts of multilateralism that marked Brazilian (and world) foreign policy in previous governments, but that now seem to fade away. The two terms, cosmopolitanism and multilateralism, are not exactly synonyms, but are closely related: multilateral policies should work in bringing peoples together in a more cosmopolitan world. Concerning that, I think of a multilateralism that does not work in bringing people together through cosmopolitanism, and one that can work in that way.

When the Cold War was over, multiple theories were presented to explain what would happen to a world without the tension between two superpowers. Some suggested that the US would reign as a lone superpower; others that it would embrace some form of benign hegemony, in a New World Order. Others still believed that US power was in decline, and that the World would see more multilateralism in the 21st century. This last view was especially dear in Brazil, but as the 21st century progresses, it does not seem to hold as much water anymore.

One great example of multilateralism substituting American hegemony was the integration of Western Europe, but that does not seem to be the case anymore. It is true that beginning shortly after WWII European countries experienced growing levels of regional integration, culminating with the European Union and the Euro in the 1990s. But even then, economists warned politicians and the general public that such a level of integration was not possible, at least not without a central government in Europe. Successive economic crises, Brexit, and the harsh questioning of immigration policies show today that economists were right back then.

Another example of multilateralism celebrated in the 1990s was the growing importance of the UN. Successive humanitarian missions and interventions in several countries suggested that that UN could now surpass the dawn that marked the relationship between USA and USSR in the previous period. Optimism went so far as to discuss themes such as the ‘obligation to intervene’, substituting previous understandings of state sovereignty. But as the years go by, cases like Haiti, Rwanda, Sudan, and many others show that the optimism was at best too high.

Finally and more recently, Brazil and other underdeveloped and developing countries focused greatly on South-South Cooperation, trying to substitute the more standard paradigm of North-South Foreign Aid. This materialized in initiatives such as UNASUR and BRICS. Although presented as a new development, that was actually very reminiscent of The Non-Aligned Movement, The Group of 77, and other initiatives from the 1960s and 1970s. Now, as Brazil, Venezuela, Ecuador, Bolivia, Turkey, China, Russia, and several other countries face growing levels of economic and political hardship, attempts to “overcome American hegemony” seem but preposterous.

New forms in multilateralism in Europe, the Global South, and even the World (in the UN) did not work because they are not really democratic, as they claim to be. Behind a rhetoric of democracy, empowerment of the poor, and so on, they are just new forms of mercantilism: political elites trying to control the economy, not just at the national level, but the international one as well. The point was never to actually bring people together, but to maintain the status quo by avoiding real competition.

The multilateralism that can bring about cosmopolitanism, and that somewhat shows in the Summer Olympic Games in Rio, is one characterized by spontaneous order. People do come together: that is the natural ways of things. The desire to trade spontaneously brings different peoples closer to one another, and as they are closer they realize how much they have in common, and also what can be learnt from the differences. It is not always a peaceful dealing, but the more people are educated to tolerate the differences and to benefit from them, the more cosmopolitan they become.

A top down approach to cosmopolitanism is just a deformed clone of the real thing. Even if some results appear, they always seem to fall somewhere in the uncanny valley, and anyway, the results do not last very long. A bottom up cosmopolitanism is the real thing, and if only elites let it be, it can grow stronger, bring more wealth, and even a little more peace to the world.