O que é socialismo?

Alguns posts atrás fiz uma exposição sobre o que é capitalismo, e também procurei expor e desmistificar alguns equívocos a respeito dele. Nos próximos posts pretendo fazer algo semelhante com o socialismo: explicar o que é e desfazer alguns mitos e equívocos. Falando a respeito de capitalismo, expliquei que esta palavra é utilizada de forma bastante livre, e assim há muitas variedades de capitalismo. Optei por expor um tipo de capitalismo associado ao pensamento de Adam Smith e à tradição liberal, algo que pode ser chamado de liberdade econômica, liberdade de mercado ou liberdade de escolha. O socialismo também aparece em variadas formas. O que exponho aqui é a variedade associada a Karl Marx. Marx foi um historiador, filósofo e sociólogo, mas o que me interessa aqui é principalmente sua teoria econômica.

A teoria econômica de Marx começa com a teoria do valor trabalho. De acordo com esta pressuposição, o que dá valor a um produto é a quantidade de trabalho envolvida na produção. Em outras palavras, o trabalho (trabalho braçal, entenda-se) é a fonte de todo valor. Esta percepção de valor trabalho pressupõe uma ligação entre mais valia e acumulação de capital. Marx argumentou que toda a riqueza é fruto do esforço dos trabalhadores. No entanto, os trabalhadores não recebem um salário correspondente ao valor pelo qual sua produção é vendida. Na percepção liberal, a diferença entre custo de produção e valor de venda é chamada de lucro. Na percepção de Marx, isto é mais valia: os donos das fábricas (ou donos dos meios de produção) enriquecem a custa do esforço dos trabalhadores. Mas esta é uma relação insustentável: para lucrar os empresários precisam pagar aos trabalhadores o mínimo possível, somente o suficiente para garantir a sobrevivência e reprodução dos trabalhadores. Com o tempo, os lucros iriam cair, o capital (ou os recursos de produção) iriam se concentrar em poucas e imensas fábricas (fabricas menores seriam levadas à falência pela competição), haveria dificuldade de transferência de capital (os investimentos seriam cada vez menos rentáveis), o número de desempregados se elevaria, a capacidade de venda cairia, crises cada vez mais profundas e frequentas ocorreriam, todo o sistema iria inevitavelmente chegar ao fim. Uma sociedade socialista, onde os trabalhadores seriam donos dos meios de produção, surgiria.

No coração da teoria econômica de Marx está o conceito de mais valia: os trabalhadores não recebem o que merecem pelo seu trabalho. Ao invés disso, eles são explorados pelos patrões. Acredito que esta noção de exploração comove muitas pessoas, mas ela não faz o menor sentido. Marx não está dizendo que alguns patrões exploram os trabalhadores. Ele está dizendo que, por definição, todos os patrões exploram os trabalhadores, pois retém na mais valia uma riqueza que não lhes pertence.

A pedra fundamental da teoria econômica de Marx é a teoria do valor trabalho: o que confere valor a um produto é o trabalho que se tem para produzi-lo. Daí que necessariamente haja exploração. Mas a teoria do valor trabalho está certa? Ela corresponde à realidade? Acredito que está bem claro que não: posso ter muito trabalho para produzir uma escultura de palitos de fósforo no meu quintal, e nunca conseguir vende-la, pois ela não tem valor para mais ninguém. Todo o meu trabalho, todo o meu esforço, é inútil e sem valor se eu não estiver produzindo algo que seja do interesse de outra pessoa. Além disso, a revolução marginalista do final do século 19, e particularmente a Escola Austríaca, veio demonstrar que valor é algo subjetivo e sujeito a condições de tempo e espaço.

A questão clássica a respeito de valor é: “porque diamantes, que não alimentam, são tão caros, enquanto que água, que é essencial à vida é tão barata?”. A resposta do valor trabalho é que dá muito trabalho conseguir diamantes, enquanto que água literalmente cai do céu. Mas esta resposta é incompleta: em alguns lugares água não cai do céu. No deserto do Saara, morrendo de sede, uma pessoa pode trocar muitos diamantes por copo de água. Em outras palavras, se a teoria do valor trabalho está correta, então há um valor objetivo: é possível calcular com precisão o valor de alguma coisa considerando o trabalho empregado em sua produção. Mas é manifesto que isto não é verdade: produtos tem seu valor afetado por muitas circunstâncias, e o esforço empregado na produção pode não ter qualquer relevância no valor final.

A conclusão é simples: se a teoria do valor trabalho está errada, toda a teoria econômica de Marx está errada. Isto quer dizer que patrões nunca exploram seus empregados? Claro que não! Isto quer dizer apenas que esta exploração não ocorre segundo a explicação de Marx.

As previsões de Marx (salários menores, maior desemprego, crises econômicas recorrentes e profundas) foram desmentidas uma a uma: a Europa do final do século 19, progressivamente marcada pelo liberalismo econômico, experimentou uma prosperidade impar em sua história. Num quadro mais amplo, nações que optam pelo liberalismo econômico prosperam, e principalmente prosperam os trabalhadores. Basta comparar Coreia do Norte e Coreia do Sul, China e Hong Kong, Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, EUA e URSS e assim por diante. Entendo que muitas pessoas se encantam com o marxismo (e como o socialismo) por se apiedarem das condições muitas vezes precárias dos trabalhadores. Porém, não basta ter o coração no lugar certo. É fundamental ter uma compreensão correta da realidade. Caso a exploração dos trabalhadores seja uma preocupação para você, sugiro considerar o capitalismo e esquecer qualquer forma de socialismo.

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One thought on “O que é socialismo?

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