O capitalismo explora os trabalhadores?

Um dos argumentos contra o liberalismo econômico que tenho ouvido recentemente (ou contra a liberdade de mercado, com pouca ou nenhuma intervenção do estado) é que as relações entre patrões e trabalhadores são desiguais, e logo então desfavoráveis para os trabalhadores; cabe ao estado intervir a favor dos trabalhadores; o liberalismo econômico não é bom para os trabalhadores. Tenho dificuldade com este argumento, pois ele passa a ideia de que os patrões não trabalham. Seja como for, acredito que posso aceitar parte do que está sendo dito: é lógico que alguns patrões irão tentar pagar o pior salário possível aos trabalhadores para conseguir os maiores lucros possíveis. É lógico que muitos patrões irão ver qualquer investimento em segurança, bem estar, saúde e outros “direitos” como gastos incômodos, e irão tentar evitar estes gastos. É lógico que o trabalhador está pleiteando a vaga, e neste sentido está à mercê do patrão que a oferece. Tudo isto é não apenas lógico, mas empírico. Pessoalmente já vi estas coisas acontecendo “com estes olhos que a terra há de comer”. Há patrões que irão tentar fazer todas estas coisas e outras ainda, aproveitando-se da situação vulnerável dos trabalhadores. Irão tentar. Mas irão conseguir?

Segundo me parece, uma forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é apelar para a caridade dos patrões. Embora eu suspeite que esta abordagem possa soar romântica para muitos, o fato é que empiricamente ela funciona com alguma frequência. Historicamente, foi o cristianismo de muitos empresários que possibilitou a melhora das condições de trabalho na Europa e Estados Unidos durante o primeiro século de Revolução Industrial. Portanto, esta é uma abordagem que, acredito, não deve ser desconsiderada.

Uma segunda forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é criar leis trabalhistas. Ao invés de esperarmos que os patrões sejam voluntariamente bons, podemos usar a violência legítima do estado para força-los a serem bons. Esta abordagem possui efeitos positivos, mas também muitas consequências inesperadas. Basicamente o objetivo de qualquer lei é tornar os relacionamentos humanos mais padronizados. Uma maneira mais negativa de dizer a mesma coisa é falar que leis engessam a sociedade. Leis trabalhistas criam “direitos”, mas também impedem que trabalhadores e empregadores negociem voluntariamente outras possibilidades de relacionamento. Um exemplo bastante conhecido é o salário mínimo, que contra intuitivamente prejudica os trabalhadores mais do que os ajuda. Finalmente, leis só fazem sentido caso sejam amparadas por um estado. E com mais leis, mais estado. Nossa relação com o estado já é por definição desigual: o estado possui o monopólio do uso legitimo da violência; nós não. Aumentar o tamanho do estado é aumentar nossa vulnerabilidade dentro de uma relação desigual, o que vai contra exatamente o que está sendo discutido aqui.

Uma terceira forma de evitar que patrões se aproveitem da situação vulnerável dos trabalhadores é a liberdade econômica. Sim, como eu comecei dizendo, é lógico e empírico que alguns patrões irão tentar se aproveitar de situações de vulnerabilidade dos empregados. Mas irão conseguir? Numa sociedade orientada pela liberdade de mercado, é mais provável que não. Com liberdade de mercado, a tendência é o surgimento de concorrência, além de uma maior diversidade de atividades econômicas. Neste cenário, patrões que procurem abusar dos trabalhadores correm o rico de perder os trabalhadores para outros patrões. Mesmo no cenário improvável de todos os patrões serem abusivos, tratar bem os trabalhadores torna-se um imperativo para manter os lucros. A alternativa seria um acordo geral dos patrões abusivos, mas isto tornasse empiricamente infactível numa sociedade progressivamente marcada por liberdade de escolha. Uma última observação nesta lista muito longe de exaustiva de benefícios do livre mercado para o trabalhador é que no livre mercado a tendência é de aumento da produtividade. E nada está mais ligado a aumentos de salários do que aumento de produtividade. De fato, onde há liberdade de mercado os salários aumentam, assim como o poder de compra.

Em resumo, sim, há patrões que se aproveitam das relações desiguais com trabalhadores para exercer poder sobre estes mesmos trabalhadores. Isto é não apenas lógico, mas empírico. Mas qual é a melhor solução para este problema? Apelar para a boa vontade dos patrões? Criar leis que deem aos trabalhadores mais direitos? Favorecer uma maior liberdade de mercado? Minha resposta é: criar leis que favoreçam maior liberdade de mercado, e ao mesmo tempo apelar para a boa vontade dos patrões, até porque num cenário de maior liberdade econômica, patrões abusivos estão indo contra seus próprios interesses.

 

Referências:

O capitalismo explora os trabalhadores?

Advertisements

6 thoughts on “O capitalismo explora os trabalhadores?

  1. Muito lúcido o texto do autor, parabéns. A Alemanha pós-Agenda 2010 é um estudo de caso interessante sobre os efeitos benéficos da desregulamentação do mercado de trabalho.

    Só discordo do ponto sobre a “caridade do patrões”. Realmente acho romântica demais. Pensarmos teoria geral com base na exceção não adianta. No longo prazo, quem pode melhorar as condições de vida trabalhador mesmo são as forças de mercado.

    • Querido Gabriel,

      Obrigado pelo comentário. Eu gostaria apenas de esclarecer que eu concordo com você! Não penso que apelar para a boa vontade dos patrões seja a solução para o potencial problema de exploração dos trabalhadores. Como eu disse no final do texto, a solução a meu ver é criar leis que enfatizem privacidade, criando com isso um espaço de trocas voluntárias. A boa vontade dos patrões pode ser muito significativa num cenário assim. Num cenário onde propriedade privada e trocas voluntárias não sejam a norma, a boa vontade dos patrões é positiva, mas não suficiente. Além disso, nunca se pode contar com a boa vontade, pois ela é por definição voluntária, e não compulsória.
      Espero ter esclarecido!

      • Creio que eu é que não fui claro! Já havia entendido que você não propunha a caridade como solução. Em verdade, apresenta três propostas e elege a última como solução. Absolutamente concordo.

        Só fiz a ressalta porque entendi que vocês acredita que a caridade possa ter o seu valor em alguma medida. É disso que eu discordei, pois não acho que a utilidade dela chegue a ser significativa na relação patrões-empregados.

  2. Entendi. Não tenho certeza do que pensar a respeito, vou refletir a respeito deste assunto. Talvez renda um post no futuro! A princípio entendo que no nível macro a caridade faz pouca diferença (e daí políticas públicas são mais relevantes), mas que em muitos cenários específicos ela faz toda a diferença.
    Mais uma vez obrigado pelos comentários!

Please keep it civil

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s