Cristianismo, socialismo, heresia e vale da estranheza

Eu sou viciado em YouTube. Uma das coisas que mais gosto de fazer nas horas livres é assistir vídeos, e assim, ao longo dos anos tenho aprendido muitas coisas novas. Um dos meus canais favoritos é o Vsauce, um canal de popularização de ciência, ou uma versão para jovens e adultos de O Mundo de Beakman. Foi num vídeo do Vsauce chamado “Why Are Things Creepy?” que aprendi o conceito de uncanny valley. Creepy é uma palavra inglesa de difícil tradução para o português. Alguns traduzem como assustador ou arrepiante, mas penso que isso não traz o significado exato. Creepy é algo que causa uma sensação desagradável de medo ou desconforto. Uma arma apontada para você é assustadora, pois é uma ameaça clara à sua integridade. Creepy é usado para coisas que não são ameaças óbvias, mas que ainda assim causam desconforto. Um bom exemplo é o uncanny valley.

Uncanny valley é igualmente um conceito de difícil tradução. O artigo em português da Wikipédia traduz como vale da estranheza. Provavelmente é um falso cognato, mas canny me faz lembrar canonical, e assim quando ouço ou leio uncanny valley penso em vale não canônico, ou vale fora do padrão. Talvez seja minha confusão entre inglês e português, mas me ajuda a compreender melhor o conceito. Uncanny valley é um conceito criado pelo professor de robótica, Masahiro Mori e utilizado atualmente na robótica e na animação 3D para descrever a reação de seres humanos a réplicas humanas se comportam de forma muito parecida — mas não idêntica — a seres humanos reais. Derivado do conceito há a hipótese de que “à medida que a aparência do robô vai ficando mais humana, a resposta emocional do observador humano em relação ao robô vai se tornando mais positiva e empática, até um dado ponto onde a resposta rapidamente se torna uma forte repulsa”. Ou seja, réplicas humanas quase reais são muito creepy: elas causam alguma repulsa, embora a razão da repulsa não seja clara. O fato é que sabemos instintivamente que um robô ou um personagem de animação 3D não é um ser humano real, por maiores que sejam as semelhanças com um.

Os conceitos de creepy e uncanny valley me vieram à cabeça pensando a respeito de socialismo e cristianismo. A meu ver o socialismo é uma heresia do cristianismo. Mas uma maneira mais popular que pensei de falar isso é dizer que o socialismo é um clone deformado do cristianismo que causa essa sensação de creepy. É um robô ou um personagem 3D que tenta copiar a coisa real, mas instintivamente sei que não é a mesma coisa. A diferença é que Masahiro Mori acredita que o uncanny valley pode ser superado, levando inclusive à interessante hipótese de não podermos mais distinguir entre o que é um ser humano natural e um ser humano artificial. Já o socialismo jamais irá se equiparar ao cristianismo desta forma. Ao contrário: num estágio inicial o socialismo se parece com o cristianismo, e pode causar alguma empatia. Porém, quanto mais o socialismo se aprofunda, mais seu caráter artificial causa repulsa a quem conhece bem o cristianismo.

Para ser totalmente honesto, estou consciente de que há variedades de socialismo e não quero cometer a falácia do espantalho. O socialismo que tenho em mente consiste numa preocupação com os mais pobres e num desejo por mais igualdade econômica e social. Considerando o que ouço de pessoas ao meu redor, este é o socialismo corrente, e não o marxismo. A maioria das pessoas não leu Marx e não conhece realmente a definição de socialismo dele. Seria interessante saber o que aconteceria caso conhecessem. Seja como for: esta preocupação com os pobres e este anseio por maior igualdade econômica e social também está presente no cristianismo. Na verdade, se você não tem uma preocupação especial com os pobres, você não pode ser chamado de cristão. Porém, as semelhanças são superficiais. O cristianismo possui uma densidade e profundidade ausentes neste socialismo que descrevi. O cristianismo é a coisa real. O socialismo a cópia infeliz que causa repulsa.

Dentro da perspectiva cristã as causas para a pobreza podem ser muitas, variando entre a injustiça e a preguiça. As soluções também são variadas, e vão de alguma ação do governo à caridade ou simplesmente disciplina. A antropologia cristã é extremamente densa, marcada especialmente pelo conceito de pecado original. Somos criados à imagem e semelhança de um Deus perfeito, mas também somos adulterados pelo pecado. Na concepção calvinista, totalmente depravados. Na concepção luterana, ainda que convertidos ao cristianismo e salvos, justos e pecadores. Outro conceito profundo do cristianismo, especialmente do calvinismo, é a dinâmica relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Em geral esta discussão vira os olhos das pessoas, mas esta é apenas uma demonstração de como o cristianismo é profundo ao tratar da nossa condição de indivíduos racionais, tomando decisões, mas confrontados com situações que estão além do nosso controle.

Mesmo pensadores não cristãos têm sido beneficiados ao longo do tempo por autores clássicos como Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal e João Calvino. Seus insights a respeito da natureza humana e da fragilidade da nossa existência são densos como chumbo. Em comparação, o socialismo, sendo o sofisticado marxismo acadêmico ou a versão mais popular, são apenas cópias superficiais e sem a mesma essência.

Se você não tem uma preocupação especial com os pobres e um desejo por justiça social, você não pode ser chamado de cristão. Ainda que você não seja cristão, a filosofia produzida por cristãos ao longo de 2 mil anos pode ser uma rica fonte de reflexão a respeito da nossa vida como indivíduos ou em sociedade. Caso você se considere cristão e socialista, você certamente ainda não conhece realmente uma dessas duas coisas. Ou as duas. Caso você se considere socialista por se preocupar com os pobres e ter um desejo de justiça social, suas ideias e sua ação podem melhorar muito se você desviar o olhar do clone e olhar para a coisa real.

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2 thoughts on “Cristianismo, socialismo, heresia e vale da estranheza

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