O que é capitalismo?

O Brasil é capitalista? O capitalismo é culpado por vários problemas que observamos no Brasil? E outros países? A China é hoje um país de economia capitalista, ainda que com política socialista (ou comunista)? O capitalismo prejudica os mais pobres enquanto beneficia os mais ricos? Estas são algumas questões com as quais me esbarro regularmente. Algumas pessoas mais sofisticadas observam que não há apenas um capitalismo, mas vários: o capitalismo brasileiro é diferente do sueco, que é diferente do japonês, que é diferente do norte-americano, e assim por diante. Vejo alguma pertinência nesta observação, mas penso que ela ainda deixa de lado a questão mais básica e fundamental: o que é capitalismo?

Suponho que sem recorrer a qualquer fonte podemos concluir que capitalismo é algo relacionado a capital. Segundo o Palgrave Macmillan Dictionary of Political Thought, de Roger Scruton, “o capitalismo é um arranjo econômico, definido pela existência predominante de capital e trabalho assalariado”. De acordo com esta definição, no capitalismo alguns ganham salários e outros ganham lucros. Capital por sua vez é definido como “os meios de produção produzidos, ou seja, commodities que foram produzidas e que por sua vez podem ser empregadas na produção de outras commodities”. Em outras palavras: capital são recursos que são empregados na produção de mais recursos. Capitalismo é um sistema econômico (e não predominantemente político ou social ou cultural) que gira em torna da alocação destes recursos.

Partindo de uma forma de pensar semelhante, Milton Friedman observou que todos os países são capitalistas. Os EUA são capitalistas. A China é capitalista. A URSS é capitalista (Friedman estava fazendo esta observação ainda no período da Guerra Fria). Não há país (ou sociedade) onde não haja capital e onde não ocorram decisões sobre como alocar o capital. Há bastante tempo Max Weber fez uma observação semelhante, afirmando que alguma forma de capitalismo esteve presente em todas as civilizações, com a diferença que mais recentemente o Ocidente produziu um capitalismo moderno, com características peculiares. Mas voltando para Friedman: todos os países são capitalistas. A questão é: quem controla o capital?

A pergunta de Friedman lembra uma observação de Friedrich Hayek: durante o período da Guerra Fria era comum afirmar que a economia da URSS era planejada, enquanto que a economia dos EUA não era. Mas esta afirmação está errada: ambas economias eram planejadas. A da URSS por um pequeno grupo de pessoas em Moscou; a dos EUA por milhões de indivíduos espalhados pelo país. O ponto de Hayek é que uma economia necessariamente envolverá decisões sobre como alocar capital (ou recursos). A questão é: quem tomará estas decisões? Um grupo de governantes num comitê centralizado, em nome de toda a população? Ou a própria população, numa esfera mais modesta, dentro de suas próprias vidas?

Adam Smith é popularmente considerado o pai do capitalismo (e também da Economia como disciplina acadêmica, além do liberalismo econômico. Adam Smith teve muitos filhos). Curiosamente, Smith não usou o nome capitalismo em seus escritos (este nome seria cunhado mais tarde por marxistas – o próprio Marx também não usou este nome, ao menos não regularmente), mas falava sobre sociedade de mercado. A observação de Smith era que em tempos recentes mais pessoas estavam se tornando mercadores. Em tempos antigos (sobretudo na Antiguidade Clássica de Grécia e Roma) as relações econômicas eram dominadas por donos de terras e escravos. Havia mercadores (ou comerciantes), mas estes ocupavam um espaço menor na sociedade (e também eram vistos com desconfiança por não produzirem nada – apenas trocarem o que outros produziram). Na Inglaterra do final do século 18 mais pessoas eram comerciantes, isto é, trocavam alguma coisa, ainda que “alguma coisa” fosse sua força de trabalho em troca de salários. Neste sentido, Smith não inventou o capitalismo moderno: apenas observou e descreveu seu nascimento – além de suas vantagens diante de outros arranjos econômicos.

Partindo de Adam Smith e chegando a Friedman e Hayek, podemos observar quatro elementos fundamentais do capitalismo moderno (ou do liberalismo econômico, ou as sociedade de mercado, ou do livre mercado): escolha pessoal; trocas voluntárias; liberdade para competir em mercados; direito de propriedade privada. A escolha pessoal se refere às decisões individuais que se toma a respeito dos recursos individuais (devo sair para trabalhar hoje? Ou devo ficar em casa?). Trocas voluntárias se refere ao fato de que posso livremente trocar meus recursos com outra pessoa que queira fazer o mesmo (havendo uma coincidência de vontades). Liberdade para competir significa que posso oferecer meus serviços (ou produtos, ou talentos) e aguardar que haja interessados. Propriedade privada se opõe a propriedade coletiva ou comunal, geralmente sob controle do estado.

Uma forma mais direta de sistematizar a teoria de Smith (e neste ponto de Friedman e Hayek) é dizer que no livre mercado a propriedade é privada (e não coletiva ou comunal) e o trabalho e assalariado (e não escravo). Mais simples ainda, o livre mercado opera pela máxima de “não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você”, ou “não mexa com quem está quieto”. No livre mercado os indivíduos são livres para fazer trocas voluntariamente com outros indivíduos – que queiram voluntariamente fazer estas trocas, havendo coincidência de vontades.

Há muitos economistas que consideram que a sociedade de mercado é mais um tipo ideal do que uma realidade. Alguns países estão mais próximos desta ideal do que outros, e neste sentido é válida a observação de que há variedades de capitalismo. O capitalismo praticado no Brasil (ou na China) não é (nunca foi e nunca chegou perto de ser) o capitalismo liberal descrito ou almejado por Smith, Friedman e Hayek. O capitalismo praticado nos EUA está mais próximo disso, embora esteja num franco afastamento deste ideal há várias décadas.

Saber o que é capitalismo é um primeiro passo para sabermos se este é um modelo que desejamos ou não. Pretendo nos próximos posts continuar este assunto. Por ora, digo apenas que quando falo a respeito de capitalismo estou pensando na sociedade de mercado descrita ou almejada pela tradição liberal. Caso o que temos no Brasil seja capitalismo, certamente não é este capitalismo que defendo.

Advertisements

3 thoughts on “O que é capitalismo?

  1. One of the key definitions of capitalism is, I think, the anonymous nature of the market. Markets are prevalent in all societies, but the market is often limited to the extended clan and immediate neighbors. In a capitalist market though I rarely know much about the person I’m dealing with and they know little about me.

  2. […] Alguns posts atrás fiz uma exposição sobre o que é capitalismo, e também procurei expor e desmistificar alguns equívocos a respeito dele. Nos próximos posts pretendo fazer algo semelhante com o socialismo: explicar o que é e desfazer alguns mitos e equívocos. Falando a respeito de capitalismo, expliquei que esta palavra é utilizada de forma bastante livre, e assim há muitas variedades de capitalismo. Optei por expor um tipo de capitalismo associado ao pensamento de Adam Smith e à tradição liberal, algo que pode ser chamado de liberdade econômica, liberdade de mercado ou liberdade de escolha. O socialismo também aparece em variadas formas. O que exponho aqui é a variedade associada a Karl Marx. Marx foi um historiador, filósofo e sociólogo, mas o que me interessa aqui é principalmente sua teoria econômica. […]

Please keep it civil (unless it relates to Jacques)

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s