Explicando a eleição de Trump para brasileiros

Para qualquer um que acompanhou as notícias pela grande mídia brasileira (leia-se especialmente Globo e Globonews) a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA parece ter sido em primeiro lugar uma surpresa imprevisível e em segundo lugar a maior desgraça que poderia se abater sobre aquele país e o mundo, quando ao mesmo tempo estes perderam a chance de serem agraciados com a primeira mulher presidente dos EUA, a imaculável Hillary Clinton. Para responder a esta avaliação, faço aqui algumas observações a respeito do sistema político e eleitoral dos EUA.

Há basicamente dois partidos políticos nos EUA: Democratas e Republicanos. Diferente de algumas bobagens que vi nos principais canais de notícias, o Partido Democrata não remonta a Thomas Jefferson. Remonta sim a Andrew Jackson, primeiro presidente populista dos EUA e notório assassino de índios. Ao longo do século 19 o Partido Democrata foi o grande defensor da escravidão, e com a abolição desta nefasta instituição tornou-se o grande defensor da segregação. Woodrow Wilson e Franklin Delano Roosevelt, famigerados presidentes democratas, muitas vezes tratados como grandes heróis da democracia, foram grandes expansores do governo federal e enfraquecedores da economia americana. Na década de 1960 o Partido Democrata criou uma versão norte-americana de Welfare State que desde então mais prejudica do que ajuda os mais pobres. Do século 19 ao 21, o Partido Democrata está sempre ao lado dos mais poderosos e contra os mais pobres, não importa se dizem o contrário.

A origem do Partido Republicano é menos antiga. O GOP (grand old party), como é chamado, foi formado pela união de vários movimentos abolicionistas, e seu primeiro presidente foi Abraham Lincoln. Em resposta à eleição de Lincoln, estados escravistas do sul dos EUA romperam com a União, dando início à Guerra Civil. Embora a história do GOP esteja cheia de controvérsias, o fato é que ao longo do tempo este partido foi mais inclinado ao livre mercado, defensor mais forte dos direitos individuais e menos populista do que seu adversário Democrata.

Para além dos partidos, a população dos EUA se divide basicamente em duas correntes políticas: liberais e conservadores. Diferente do que ocorre no Brasil ou na Europa, o termo liberal é utilizado nos EUA para indivíduos de esquerda. O termo liberal passou por uma mudança na virada do século 19 para o 20, sendo adotado por indivíduos do movimento progressivista (notoriamente o já citado presidente Woodrow Wilson), que defendia a expansão dos poderes do estado e menor liberdade de mercado. Eventualmente o termo liberal tornou-se associado aos Democratas.

Conservadores nos EUA são as pessoas que querem conservar o país como este foi fundado no final do século 18. Conservadores são mais constitucionalistas do que os liberais, defendem um governo mais limitado e maior liberdade de mercado. Em outras palavras, conservadores são liberais clássicos, enquanto que liberais deturparam este termo, quando deveriam se chamar de progressivistas (embora seja altamente questionável se sua posição promove algum progresso). Eventualmente conservadores também se tornou um termo ligado a cristãos, embora esta ligação seja menos necessária do que possa parecer. Conservadores estão particularmente ligados ao Partido Republicano.

Evidentemente é impossível que a população de um país grande como os EUA se encaixe perfeitamente em somente dois partidos políticos ou duas tendências ideológicas. Os liberais em geral defendem liberdades sociais (como legalização das drogas e união civil de homossexuais), mas são contra liberdades econômicas (como contratos livres entre trabalhadores e empregados). Conservadores são contra liberdades sociais e favoráveis a liberdades econômicas. Pessoas favoráveis aos dois tipos de liberdade sentem-se pouco representadas nos dois principais partidos, e, embora em geral optem pelo GOP, também tem como opção o Partido Libertário ou o movimento Tea Party (não um partido político formal, mas sim um movimento de protesto contra o crescimento do estado, em favor do retorno aos parâmetros constitucionais). Há também socialistas, ambientalistas, comunistas, e todo o tipo de tendência política nos EUA. O fato é apenas que somente dois partidos possuem uma representatividade nacional.

O fato de que os EUA possuiriam somente dois partidos políticos expressivos foi previsto bastante cedo por James Madison, um dos Pais Fundadores e principal autor da Constituição. No final do século 18, Madison previu que devido ao tamanho do país (ainda pequeno se comparado com as dimensões atuais) e sua diversidade, um partido de projeção nacional precisaria evitar extremismos e se focar em posições moderadas, que pudessem atender à população como um todo. Foi o que aconteceu. Ao longo de toda a sua história os EUA tiveram um sistema bipartidário, variando apenas os partidos que compõem este sistema. Republicanos e Democratas tem sido estes dois partidos desde meados do século 19.

Na primeira metade do século 19 outros partidos compuseram o sistema bipartidário previsto por Madison. Mudanças variadas levaram partidos antigos a perder relevância e serem substituídos por novos. É possível que o mesmo fosse ocorrer com Democratas e Republicanos, mas mudanças na lei eleitoral realizadas especialmente na década de 1970 tornaram mais difícil a entrada de competidores nas eleições. Estas mudanças são em parte responsáveis pela animosidade de grande parte do eleitorado, que não se sente representado por nenhum dos partidos, e consequentemente não se importa em votar. Este quadro é um alerta para pessoas que defendem uma genérica reforma política no Brasil, particularmente uma que limite a entrada de novos partidos.

Há em geral uma grande distância entre o que políticos falam em uma campanha e o que fazem uma vez nos cargos. Isto é particularmente verdade a respeito de Hillary Clinton. Graças à sua vasta experiência em cargos públicos, podemos dizer com segurança que Clinton é uma política profissional que busca angariar votos com argumentos que não necessariamente irão guiar suas ações uma vez no cargo. Trump é um político novato, e assim esta mesma avaliação torna-se impossível de fazer, mas há a impressão de que sua campanha foi conduzida como um dos reality shows de que ele fazia parte anos atrás: trata-se de uma realidade produzida com o objetivo de alcançar audiência, não de realidade real. É bastante provável que Trump presidente seja bem mais moderado do que Trump candidato, para o bem ou para o mal. Simpatizantes de Hillary podem se impressionar, assim como eleitores de Trump podem se sentir traídos.

 

Advertisements

3 thoughts on “Explicando a eleição de Trump para brasileiros

  1. Muito interessante o texto. Fiquei apenas com uma dúvida. Na sua narrativa, o autor parece descrever uma tradição contínua no pensamento dos partidos Republicano (direitos individuais, livre mercado) e Democrata (Estado gordo). Como se encaixa a tradicional explicação de houve um grande “political shift” nas plataformas de ambos ao longo do século XX, começando nos 1930s e consolidando-se nos 1960s. O autor refuta essa tese ou ela diz respeito apenas a pontos específicos?

  2. Olá Gabriel! De fato muita coisa mudou desde a fundação dos dois partidos. A história dos dois partidos é longa, e assim houve bastante mudança em ambos, sendo o political shift a que você se refere um momento de grande importância. Eu apenas não quis entrar nesta discussão. Talvez eu escreva mais a respeito no futuro. Mas o quadro atual é este: o GOP é conservador (o que no cenário norte-americano significa ser mais pró liberdade econômica) e o Partido Democrata é liberal (o que no cenário norte-americano significa ser favorável a mais controle político sobre a economia). Porém, há muitos problemas com ambos os partidos de um ponto de vista libertário. Política é uma busca por poder e políticos costumam ser traiçoeiros nesta busca, não importa o partido a que estão ligados.

Please keep it civil (unless it relates to Jacques)

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s